“Mulher, vida, liberdade!” Concerto britânico mostra solidariedade com mulheres no Irã em meio ao aumento do número de mortos Música:

“A situação no Irã é diferente de tudo que já vimos antes”, diz Hesam Garshasbi, jornalista musical, promotor e ativista que se mudou de Teerã para Londres durante o levante de 2020.

Nas últimas nove semanas, protestos eclodiram no Irã após a morte de Mahsa Amina, de 22 anos, sob custódia policial por supostamente violar regras estritas de vestuário para mulheres.

Ao contrário dos movimentos anteriores, as manifestações aconteceram em todo o país, com pessoas de diversas classes sociais e faixas etárias saindo às ruas para defender a liberdade de mulheres e meninas. As meninas da escola removeram seus hijabs em público e estudantes universitários no norte do Irã supostamente removeram as barreiras de segregação de gênero impostas pela lei em seu refeitório. Enquanto isso, “Mulheres, vida, liberdade” tem sido entoado diante da violência, das prisões e do crescente número de mortes.

Esta noite, uma programação de artistas, poetas e ativistas se apresentará no Royal Festival Hall do Southbank Centre para esclarecer os eventos em andamento e mostrar solidariedade às mulheres no Irã.

Lianne La Havas, Kelsey Lu e a London Contemporary Orchestra serão acompanhadas por músicos com conexões com o Irã e a diáspora, incluindo Faramarz Aslani, Lafawndah e Golnar Shahyar.

“Estamos enfrentando muita ansiedade agora”, diz Garshasbi, que co-organizou o evento em Londres ao lado de seu colega promotor Adib Rostami. “Estar juntos como uma comunidade ajuda. vendo um ao outro, conversando um com o outro, cantando um com o outro. Este concerto reunirá a comunidade iraniana com amigos não iranianos que simpatizam com o assunto. Isso os ajuda a serem ouvidos.”

Usar a performance como ferramenta para impulsionar a mudança fazia sentido para Garshasbi, cuja relação com sua pátria sempre esteve ligada à música e à resistência. Com gêneros como rock, rap e EDM banidos, ele organizou competições não oficiais de música underground para celebrar os sons proibidos em Teerã.

Mas a importância da música é compartilhada pelo povo iraniano, diz ele. “A música é unificadora, edificante e curadora. Seu valor é crítico para a maioria das culturas, mas para os iranianos também é carregado com uma grande quantidade de simbolismo e significado, porque foi fortemente restringido pela república islâmica por tantos anos. Então, para nós, apenas tocar música ou segurar um instrumento pode parecer um ato de resistência.”

Além da proibição de certos gêneros e estilos de música, as mulheres são proibidas de cantar em público no Irã. “Este show é uma chance para essas mulheres serem ouvidas, porque elas nunca tiveram esse tipo de plataforma lá atrás”, continuou ele. “É claro que não poderíamos organizar esse tipo de coisa no Irã. Mas aqui, é uma possibilidade.”

‘Sou um artista político, faz parte da minha identidade’… A musicista curda Sakina Teyna. Fotografia: Derya Schubert Gulcehre

A compositora, vocalista e multi-instrumentista Shahyar teve que deixar seu país natal, o Irã, há sete anos, para seguir com segurança sua carreira na música. Agora morando em Viena, ela ainda apresenta suas canções em farsi e explora temas políticos e sociais, incluindo os direitos das mulheres e suas próprias experiências. “Faço uma interpretação pessoal do que entendo como música. Eu misturo muitos estilos diferentes e crio meu próprio mundo de sons”, diz ela. “Mas meu trabalho está sempre relacionado ao Irã porque eu uso muito o vocabulário musical de lá. Mantive a ligação ao país muito forte.”

Participar do evento é uma forma de Shahyar canalizar sua raiva e trauma geracional para algo positivo. “Eu me sinto sobrecarregado. Sempre cantei sobre minha situação no Irã, mas este é o momento. Tudo está se encaixando”, diz ela. “Espero que isso impulsione a causa porque ela precisa ser discutida. A mudança não acontecerá amanhã, então precisamos continuar; precisamos manter essa energia, essa atenção, alta. E para pressionar os políticos do Ocidente a fazerem ações diretas contra esse regime.”

A musicista contemporânea Sakina Teyna, que também mora em Viena, se apresentará ao lado de Shahyar. Ela foi exilada de seu Curdistão natal em 2006 e continua a cantar sobre mulheres e liberdade em seus projetos musicais. “Sou uma artista política, faz parte da minha identidade”, diz ela.

Mostrar solidariedade às mulheres iranianas neste evento significa muito para Teyna, cuja experiência pessoal guarda semelhanças, diz ela. “Sou curda, então sei como é difícil quando ninguém te ouve, quando ninguém quer ser sua voz, quando você é decepcionado. Como mulheres discriminadas, queremos fazer algo. Esta é a nossa luta também.”

Apesar das atuais ameaças contra manifestantes no Irã, ela, como Garshasbi e Teyna, mantém a esperança. “A música não pode salvar o mundo”, diz ela, “mas pode ajudar a criar um lugar melhor.”